Corpore
corpo do teu corpo,
sou um corpo morto,
um adeus sem palavras,
sou a espuma fria
das ondas esfaceladas,
sou todos os homens e todos
os bichos que passaram por mim,
sou a árvore na terra,
as cinzas das árvores,
sou o pó do pó,
sou a diferença entre a realidade
e aquilo que poderia ter sido,
sou corpo do meu corpo,
sou o que sou e o que sou não chega
para nada.
Foz Côa, Kodak T-Max 3200
Ano II
Este blog faz hoje dois anos.
(bom, fê-los ontem, mas só hoje é que dei por isso)
Notas de viagem IX - Chios, Grécia
Atenas é um logro.
A cidade é um caos de edifÃcios de cor ocre, um autêntico crematório dos anos 50 pontuado aqui e ali pelos resquÃcios da Antiguidade Clássica que nos são vendidos nas brochuras turÃsticas.
Atenas é um manto castanho que desce das montanhas até ao Pireu e que se torna insuportavelmente asfixiante na onda de calor com que me recebe. No ar, o céu está escuro: são os Balcãs que ardem, dizem-me. Quando estendo o braço pela janela do táxi, é como se o metesse num forno. Estão 50º C lá fora, ainda mais aqui dentro, quase que o posso jurar.
No dia seguinte, quando subo do Plaka até à Acrópole, de visita à antiga moradia da Athena Parthenos, verifico que a primeira impressão que tive da cidade se confirma: entre os mármores derretidos nos fornos de cal, a explosão do paiol turco seiscentista e a venda dos frisos a Lorde Elgin no século XIX, vê-se mais do Parthénon no British Museum do que em Atenas. Salva-se a vista sobre a cidade, as oliveiras e a certeza que para se sair dali me basta apenas descer os degraus que tanto custaram a subir, por entre magotes de japoneses e alemães açoitados pela vaga de calor.
No aeroporto, de partida para a ilha de Chios, as portas do avião – um verdadeiro porta-chaves da Olympic Airways – ficam abertas enquanto cozemos lentamente à torreira do sol. Ainda hoje recordo distintamente as costas alagadas em suor da única hospedeira de bordo, a camisa branca um lago transparente de água, o peito afogueado e a cara esbraseada. Ao meu lado, os passageiros são estereótipos gregos, vestidos de negro, curtos e secos. Nem um único turista: esses vão para Mykonos e Creta, à procura de
sun, fun and sex.
Chios, bem como as suas adjacentes
Psaras e
Ouinosses, é uma ilha pobre em água. A terra seca e árida eleva-se até aos 1300 metros do monte Pelineo e nela crescem as árvores tÃpicas do Mediterrâneo juntamente com algo único: o
mástique, uma secreção vegetal que valia o seu peso em ouro na Antiguidade e que ainda hoje é exportada e vendida em caixinhas medicinais (para os mais curiosos, sabe a resina de pinheiro e, quando mastigada, é como se fosse pastilha elástica).
Chios é a quinta maior ilha da Grécia. E está muito perto da Ãsia Menor. Tão perto que, da cidade de Chios se vê de dia a massa escura e imponente da Turquia e, à noite, as luzes de Çesme e Alaçati. Chios está tão perto dos turcos que só deixou de estar sob o seu domÃnio em 1912, um facto que se comprova pela música que se dança nas discotecas – 90% do que aqui se toca é árabe ou turco – e pelas feições dos habitantes.
Mas é a Grécia, também, que aqui está. É o azul deslavado, esbranquiçado, do mar Egeu, com cavalinhos ondulados a banhar as praias de burgau grosso.
São os homens que manueseiam incessantemente com os seus
komboloi, os padres ortodoxos que circulam pelas ruas nas suas barbas e vestes negras, as mulheres que se sentam nas esplanadas e bebem por copos altos café com gelo.
É o castelo bizantino de Chora, as folhas de videira recheadas, o custo de vida que é metade do nosso, os Ãcones gregos.
É o mergulhar na baÃa do porto de Ouinosses e nadar até à ilhota com a sua capelita. É o ficar, à noite, deitado nas pedras ainda quentes do cais, sentir o aroma do peixe assado, bebericar vinho com resina e petiscar polvo assado nas brasas. É ver passar um pescador, igualzinho aos nossos, e ouvi-lo lançar-nos um
kalispéra áspero e musical. É o sentir o peso da antiguidade da terra e do mar. É, no fundo, ter saudades de lá voltar.
a espaços largos,
o mar cinzento depositava na areia
aquilo que o rio lhe tinha trazido,
como se fossem oferendas vindas de longe,
sem destino.
flutuava em tudo um perfume amargo de Inverno,
como se a vida nos resvalasse debaixo dos pés,
como se fosse sempre tudo demasiado tarde para qualquer coisa.
em todo o caso,
- e se me o perguntassem um dia -
juraria que muitos minutos depois,
tu te tinhas levantado.
afirmaria, convicto, que vira o teu corpo
ausentar-se
na fÃmbria purpúrea do ocaso,
como se mais não fora do que sombra fugaz,
efémera,
no encontrão rápido do cair das noites.
e
- se me o perguntassem novamente -
diria que te tinha entrevisto,
sob a chuva miudinha,
de pés fincados na espuma da água,
a entrelaçar,
com a tua verdade e o teu querer,
a filigrana da pelÃcula que te recobria,
essa camada fina e translúcida
que nos separava,
dia a dia,
irrecuperavelmente,
cada vez mais longe
do longe em que nos tornáramos,
espaços largos cheios de nada,
de ar e de vento
somente.
Pela lei e pela grei
Ouvido agora na televisão, na SIC-NotÃcias, da boca de um senhor representante sindical dos polÃcias, sobre a polémica de a PSP ter de sair da ADSE e passar a usufruir do Serviço Nacional de Saúde - vulgo A Caixa - como o comum dos cidadãos:
o senhor está a ver, temos casos de associados nossos, que se viram forçados a sair da ADSE e vão aos centros de saúde normais e encontram lá indivÃduos que prenderam há uns dias atrás. Isto não pode ser, há aqui uma questão de segurança dos nossos profissionais
Ou outro responsável sindical, vocifera, na rua
passar os polÃcias da ADSE para o Serviço Nacional de Saúde é um atentado à sua saúde!
Ouve-se e não se acredita. Das duas, uma: ou eu, quando vou à minha médica de famÃlia tenho lá na sala de espera facÃnoras, criminosos desalmados capazes de provocar um arrastão qualquer por entre as velhotas reumáticas e as crianças ranhosas à espera de vacina; ou tenho os mesmos meliantes à mistura com polÃcias cheios de medo deles, por os terem prendido há uns dias atrás e agora não se poderem defender dos mesmos porque se encontram combalidos e desprotegidos, descobertos que estão pelo SNS, esse arremedo de serviço de saúde, próprio da maralha e da populaça.
Nada me move contra os polÃcias. Muito pelo contrário: acho que são demasiado mal pagos e que trabalham demais, em condições terceiro-mundistas e desumanas. Refúgio de muitos jovens que não conseguem lograr mais do que o 11º ano e que vêm nas forças policiais uma saÃda profissional tão boa como outra qualquer, a PSP carece de formação técnica como de pão para a boca. À parte o GOE e o CI, os nossos polÃcias são carne para canhão, muito por culpa do Ministério da Administração Interna. Por isso, por todas essas razões, vale a pena reinvindicar, reclamar. Estou convosco.
Agora, com dirigentes destes, meu Deus, a dizerem coisas destas!
Que querem vocês que os cidadãos pensem? Que o SNS é um cói de bandidos, impróprio até para que os polÃcia se vão lá tratar?
Que quem não tem o privilégio de ser funcionário público mas que desconta todos os meses para a Caixa, tem a sua saúde atentada?*
Assim não vamos lá. Este mal estar, estas manifestações todas, estes corporativismos que se empolam e rebentam como pústulas sarnosas, dos professores aos juÃzes, dos polÃcias aos farmacêuticos, só podem ser sinais de que o governo está no bom caminho.
Oxalá não lhe falte a coragem.
*nesta, até que acredito: ninguém no seu perfeito juÃzo, aceitaria passar das mordomias da ADSE para as listas de espera de meses e anos da Caixa. Coitados dos polÃcias que irão lá bater com os costados. Coitados de nós, que já lá estamos. Coitado de quem não tem dinheiro para ter plano privado de saúde.
Mea culpa
Peço desculpa.
Realmente, peço desculpa. Sinceramente. Quando me diziam que alguns docentes metiam baixa por razões psicológicas, eu não acreditava lá muito nisso. Está bem que sempre fomos um povo muito dado ao fado, à emoção, ao crime passional do género “passou-me uma coisa pela vistaâ€, à alcoviteirice, à faca na liga e ao “agarrem-me já senão eu mato-o, eu seja ceguinho se não lhe vou à s trombas, agarrem-me porra, que eu desgraço-me já aquiâ€.
Afinal, enganei-me. A julgar pelos comentários ao post abaixo, as insinuações, a quantidade de gente paranóica que, a crer nas suas palavras, "já deu aulas comigo" e "sabe porque é que eu fui expulso da docência", a julgar dizia eu, pela autêntica catarse para a qual esta caixa de comentários tem servido, por parte de alguns senhores e senhoras, anónimos como convém a qualquer bom português que se preze, auto-intitulados docentes, só vos posso pedir, contrito, de baraço ao pescoço e de pregão ao peito, desculpa.
Enganei-me. Há por aà uns pseudo-docentes que não são sornas. São muito mais que isso. São doentes. São frustrados. São gente incapaz de conceber que haja alguém que, sem estar fora do seu juÃzo ou sem ter razões de força maior, criminais quiçá, para dar pimenta à coisas, tenha querido voluntariamente abdicar da nobre, digna e esplendorosamente cobiçada carreira na docência pública.
São pseudo-docentes que não sabem interpretar um texto. Gente que não tem condições mentais, morais e intelectuais para estar à frente de jovens.
São gente que faz bem em se esconder no anonimato. Protegem-se. Resguardam-se. Fazem bem a si próprios porque, se isto se sabe, acho que não haveria vÃnculo à função pública que os amparasse.
Enganei-me, portanto. E quero crer, com muita força, que alguns dos comentários que por aà abaixo se escreveram partiram de impostores, de gente que nunca foi, ou é, docente. Quero, também aÃ, ser enganado. Para que não veja confirmados os piores medos dos pais, dos encarregados de educação e da sociedade em geral - a de que andam alguns* tarados à solta nas nossas salas de aula.
• asterisco especialmente dedicado aos iliteratos que me treslêem: quando digo alguns, é mesmo alguns; poucos, um punhado, uma mão-cheia. Não é dedicado a cada um de vocês, está bem? É só mesmo para quem se aplica, ok?
Trabalham 22 horas por semana. Têm um serviço de saúde diferente do comum dos cidadãos, melhor e de muito mais rápido acesso.
Quando querem faltar, põem 'artigos'.
Fazem formação para subir na 'carreira', não para se formarem. Fazem mestrados para subir de 'escalão', não para serem mestres de alguma coisa.
Contam acirradamente 'dias de serviço' e mordem nas canelas dos 'colegas' que têm uma semana de 'serviço' a mais do que eles. Muitos não falam português: falam eduquês - uma lÃngua hermética, feita de casca de cebola, à s camadas concêntricas de termos espúrios, idiotas e pseudo-cientÃficos.
Têm 15 dias de férias pelo Natal, uma semana pela Páscoa, duas semanas 'intercalares' e três meses de férias pelo Verão (se vos disserem que têm apenas 22 dias de férias, como o comum dos cidadãos, não acreditem - é treta).
Há uns, poucos, que são bons: nasceram para ensinar, para formar, para educar.
Outros, muitos, demasiados, são uns sornas, funcionário públicos que estão ali para ganhar o seu - não dão aulas, vendem aulas. Não querem chatices. Não querem aturar 'os filhos dos outros'. Não sabem transmitir conhecimentos. São pobres de espÃrito, são mal formados, são mal educados, são ignorantes, são como a maioria dos portugueses - gente que se licenciou, mal ou bem, e que têm competência legal para ser docente. Nada mais. No nosso paÃs, não é professor quem deve - é quem pode apresentar uma nota de conclusão de curso, uns dias de serviço e uma data de nascimento.
Durante 4 anos fui um deles. Vi como o sistema é podre, como os 'programas' que vêm do 'Ministério' são maus, inconsistentes, desadequados. Vi como o que se vive nas escolas é fruto da mente distorcida de uns quantos 'académicos' que nunca na sua vida deram aulas ao segundo ciclo, quanto mais a uma turma do 7º ano com um média etária de 17 anos. Vi como quem faz os programas vive desligado da realidade, vi como as acções de formação são a coisa mais chata e inútil à face da terra, vi como muitos pais depositam os filhos à porta da escola e pedem que não os chateiem com greves inopinadas ou perÃodos intercalares capazes de os deixar literalmente com a criancinha nos braços.
Vi tudo isso porque durante 4 anos fui um deles. Fui um deles - dos mais insignificantes na cadeia alimentar do ensino português, mas um deles. Um 'colega', com 1346 dias de serviço, com direito a cartão do sindicato e tudo.
Quatro anos de serviço, fora os meses de Agosto. Dois anos mais e seria professor do Quadro de Zona Pedagógica. Uns anos mais e seria Professor do Quadro de Nomeação Definitiva - o PQND, o Santo Graal pelo qual almeja o funcionário público que estrebucha dentro do corpo de cada português que faz pela vida, de preferência sem muito trabalho envolvido e com bastantes benesses, alcavalas e prebendas à mistura.
Durante 4 anos fui um deles.
Adorei dar aulas. Sei a que ponto de cansaço se pode chegar quando se é cumulativamente Director de Turma, Delegado de Grupo, Membro do Conselho Pedagógico, professor de Ciências do 7º e do 8º, de Biologia do 12º e de Técnicas Laboratoriais de Biologia, com 6 turmas, com 27 a 30 alunos cada.
Sei que muitos levam trabalho para casa, que corrigem provas nos comboios, no café. Sei que muitos não aguentam a pressão e ou gritam "Comandos!" ou 'metem baixa' por esgotamento. Sei que muitos têm os carros riscados, os pneus furados, a pele marcada pela bota cardada de algum discente mais 'hiperactivo' ou a roupa chegada ao pêlo numa reunião de pais mais calorosa. Não ignoro tudo isso, como também não ignoro que, no cômputo dos cômputos, a vida de professor é também uma vida santa.
Santa, para os sornas. Só não é fácil para quem quer empenhar-se. Para quem quer dar o litro e correr a proverbial milha extra. Sei que não é fácil porque fui um deles, porque o fui até me ter decidido mudar radicalmente de vida, de emprego, de ocupação, de temática, até algo mais aliciante me ter chamado. Fui-o há muito tempo, mas não há tanto que possa esquecer o bom, o mau e o que não é fácil.
Não é fácil, especialmente, remar contra a corrente e lutar contra um sistema que não castiga os preguiçosos nem afasta os nitidamente incompetentes. Não é fácil para os poucos, muito poucos, que se preocupam, que se incomodam, que se entregam de corpo e alma à honrosa tarefa de ensinar.
Aos outros, a esses muitos outros, eu digo - parafraseando uma ex-colega minha, professora de Português-Francês, que dizia que "dar aulas é muito giro, o pior é ter de aturar os alunos" - que ter um sistema de ensino é muito giro, o pior é ter de aturar os senhores que vêm para a televisão vociferar contra a perda de 'privilégios e direitos adquiridos".
Basta! Estou farto de contribuir para esse peditório. Estou farto de vos dar dinheiro, dinheiro que me custa a ganhar todos os meses para que agora venham fazer a vossa greve de merda na altura dos exames. Estou farto de aturar supostos profissionais que fazem sempre greve quando mais dói, quando sabem que mais podem prejudicar os alunos e fazer mais mossa mediática.
A crise, quando toca, toca a todos. Vamos lá a mexer esse cu e a fazer pela vida, a vossa e dos vossos alunos, aqueles que são a razão da vossa existência. Se não estão satisfeitos, vão bardamerda: há tantos colegas vossos no desemprego que, mais cedo que tarde, alguém vos há-de substituir.
Vá. Façam-me esse favor: despeçam-se do Estado. E vejam se trabalham, por uma vez na vida.
Te enterramos ayer.
Ayer te enterramos.
Te echamos tierra ayer.
Quedaste en la tierra ayer.
Estás rodeado de tierra
desde ayer.
Arriba y abajo y a los lados
por tus pies y por tu cabeza
está la tierra desde ayer.
Te metimos en la tierra,
te tapamos con tierra ayer.
Perteneces a la tierra
desde ayer.
Ayer te enterramos
en la tierra, ayer.
No podrás morir.
Debajo de la tierra
no podrás morir.
Sin agua y sin aire
no podrás morir.
Sin azúcar, sin leche,
sin frijoles, sin carne,
sin harina, sin higos,
no podrás morir.
Sin mujer y sin hijos
no podrás morir.
Debajo de la vida
no podrás morir.
En tu tanque de tierra
no podrás morir.
En tu caja de muerto
no podrás morir.
En tus venas sin sangre
no podrás morir.
En tu pecho vacÃo
no podrás morir.
En tu boca sin fuego
no podrás morir.
En tus ojos sin nadie
no podrás morir.
En tu carne sin llanto
no podrás morir.
No podrás morir.
No podrás morir.
No podrás morir.
Enterramos tu traje,
tus zapatos, el cáncer;
no podrás morir.
Tu silencio enterramos.
Tu cuerpo con candados.
Tus canas finas,
tu dolor clausurado.
No podrás morir.
Jaime Sabines
Vasco amigo, o povo está contigo.
Morreu hoje o General que anos e anos a fio aparecia à varanda de um apartamento anódino qualquer, numa avenida qualquer de Lisboa, frágil e comovido, a ver passar a multidão, a cada ano menor, que desfilava lá embaixo, na rua, a caminho do rio, a gritar em unÃssono: Vasco, amigo, o povo está contigo.
Bem ou mal, o General morreu. Os cravos murcharam, a revolução perdeu o érre, a Reforma Agrária transmutou-se em campos de golfe e desertos a perder de vista. O General, esse, há-de ficar sempre dentro do peito de um menino que desfilava também, na avenida lá embaixo, e que o olhava, ao General, frágil e esquecido, à varanda de um apartamento qualquer, de um menino que um dia deixou, também ele, de desfilar e de acreditar nos amanhãs canoros que um dia se ergueriam da mediocridade deste nosso paÃs e chilreariam, esvoaçantes, em direcção ao futuro.
Morreu hoje o General, anos, muitos anos depois de o terem morto e enterrado.
habitas agora a memória
a memória de todas as coisas
esquecidas, de todas as coisas
não recordadas, as coisas
perdidas pelos cantos,
abandonadas, apodrecidas,
amargas, putrescÃveis.
e não mais nos entregamos
não mais nascemos um no outro
não mais lembramos a pele
na pele, a pele que nos cobria
e descobria quando as coisas
ainda eram esse mar azul e verde
que nos subia à boca, eram o sal
das coisas, de todas as coisas
agora desabitadas à beira-mar.